(Sim, sei, vocês não sabem de que estou falando porque a beleza desapareceu há muito tempo. Ela desapareceu sob a superfície do barulho - barulho das palavras, barulho dos carros, barulho da música - no qual vivemos constantemente. Está submersa como a Atlântida. Dela só restou uma palavra cujo sentido é a cada ano menos inteligível.)
[Milan Kundera]

domingo, 25 de janeiro de 2009

Carta a São Paulo (Cidade Absoluta)

Montanhas verticais de concreto,

Mar etéreo de vida e morte acinzentadas!

Muros, muralhas, como vos amo, paredes gigantescas!

Veias de aço ensangüentadas de luz elétrica.

 

Acredito em deus quando vejo teus prédios altos na Avenida Paulista!

Vejo os anjos refletidos nas imensas paredes de espelho dos arranha céus

Que levam aos portões do paraíso. E ao inferno, em seus estacionamentos.

Acredito em demônios quando vejo o sangue dos acidentes das tuas esquinas absurdas

Quando as pessoas seguem, quando não sorriem porque são duras como você, cidade absoluta, porque são da mesma pedra dos teus edifícios a perder de altura.

 

Metrópole alucinógena e alucinada, quando você respira, metrópole mundial?

Quando teus números stagnam, teus semáforos emperram e teus trens se tornam paraplégicos, cidade assustadora? Nunca!

Você nunca para, você vive do teu próprio movimento, cidade cinética!

 

Se um vírus infecta teu organismo audacioso, morre atropelado pelos glóbulos elétricos e poluentes, caminhões, carros, motocicletas.

As doenças em ti não duram, cidade infectada, pois que você é mais doente que as patologias que te afetam, e vence-as todas com teus delírios e alucinações.

Verde, amarelo, vermelho, verde, amarelo, vermelho, luzes piscam frenéticas frente às tuas vistas,

Correm rios de lâmpadas brancas e vermelhas, como numa artéria, sem repouso.

Tuas grotescas vias e teus veículos ciclópicos de duas rodas e uma só tormenta,

Tuas peças de xadrez em guerra atômica, uma contra cada uma das outras,

E você, tabuleiro imenso, sobrevive.

 

Você grita, com o pouco oxigênio que te sobra você grita, cidade adolescente.

Teus braços comerciais se movem em êxtase e loucura, socorro, você grita, pois que cresce e é mais do que você mesma pode suportar.

Teu próprio peso de placa tectônica é grande demais para teus suportes de carbono e aço

Você não suspira, cidade violenta, você urra, berra, você implora e você morre, cidade-espanto de roupas cinzas e olhos pretos.

 

Você morre e renasce de ti mesma, cidade-antítese, cidade-paradoxo,

oxímoro hipertrofiado!

Morre, cidade infeliz, e explode dentro de ti mesma, na vida que não consegue conter no teu útero abortado de mãe violentada!

E então da à luz tua própria natureza, tuas próprias árvores de fios de cobre retorcidos, de destroços velhos de ônibus queimados, de fumaça, trânsito e miséria!

 

E eis que te ilumina, cidade escancarada, a força de quem te faz infernal e insuportável nos meios-dias de domingo.

E nas sombras com ar condicionado, encontram-se quadros, teatros, livros, professores, filmes, palestras, discussões, recitais, corais, e mil, mil pessoas de cada vez, piscam tentando absorver-te o brilho, cidade-diamante.

 

Dura, impetuosa, fria e absurda, renasce mais uma vez, cidade absoluta.

Quantas outras quatrocentas e cinqüenta e cinco vezes você terá que renascer até que aprendam todos que te vêem, é a melhor e reina superior.

Egoísta, gigantesca, monstro absurdo de pedra,

É a melhor e reina superior, esplendorosa, debaixo de tuas tempestades e enchentes, por cima dos terremotos, até eles vieram tentar contra você!

 

Mas você é quimérica, cidade. Você vence todas as forças antropo-criadas ou naturais, todas as forças ajoelham aos teus pés, São Paulo absoluta, e você as pisa com altivez e superioridade.

 

O importante para você, coisa abrutalhada, é que as engrenagens girem sempre na velocidade certa, e você não pare nunca de trabalhar, entre gritos, urros e choros, você continua, mãe violentada, a abençoar todos que te querem como madre pétrea.

3 comentários:

Conceição Duarte disse...

SÓ PELO NOME, PENA DE VIDRO, JÁ GOSTEI DO SEU BLOG. MUITO INTERESSANTE, SÃO PAULO DA GENTE, DA GAROA, DOS BONS E RUINS TEMPOS. MÁGICOS E TRÁGICOS, SAUDADES DE SAMPA DO PASSADO, SAUDADES DA SÃO PAULO DO PRESENTE - NÃO VIVEMOS SEM ELA, SÃO PAULO É ABSOLUTA COMO VC MESMO DIZ. BJUS E FELICIDADES AQUI E ONDE VC ESTIVER, CON DUARTE

Alice Salles disse...

Amén!
"Você nunca para, você vive do teu próprio movimento, cidade cinética!" Cada linha de tua prosa cheia de sangue é como corte que aprofunda a dor e amor a essa cidade que é sua e minha também.

Alice Salles disse...

Ga!
Poe o negocinho pras pessoas poderem te seguir no blog!
Beijos