(Sim, sei, vocês não sabem de que estou falando porque a beleza desapareceu há muito tempo. Ela desapareceu sob a superfície do barulho - barulho das palavras, barulho dos carros, barulho da música - no qual vivemos constantemente. Está submersa como a Atlântida. Dela só restou uma palavra cujo sentido é a cada ano menos inteligível.)
[Milan Kundera]

sexta-feira, 28 de agosto de 2009



Parei de contar, faz tempo
As horas que passam no relógio,
Os tique e taques do tempo
As divisões do calendário
As noites que passei em claro
Parei de contar faz tempo.

As páginas, os livros, as letras
As músicas, os versos, os versos
Os inversos dos versos e os versos
Os sons das palavras, os sonhos,
Parei de contar faz tempo.

As citações dos livros que são tuas
Passam já despercebidas e eu leio
Como se meus olhos fossem teus
Pensando: isto se encaixa para mim
E eu não preciso tomar nota, então,
Só pra te mostrar depois.
Os inversos dos versos e os versos
Parei de contar faz tempo.

Parei de te contar faz tempo.
Mas o tempo continua, ainda que eu pare,
E com o tempo eu continuo, sem contar.
Parei de contar. Faz tempo.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009



A man never knows what's in the other side of the mirror. He just knows there's something to do with himself, and he knows that intuicional.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009


O mundo lá sempre a rodar,
E em cima dele tudo vale
Quem sabe isso quer dizer amor,
Estrada de fazer o sonho acontecer...
[Milton Nascimento]

Olhos nos teus óculos escuros
E vejo o brilho que não mora muito lá
Sinto vontade de acender tua alma
Pra depois poder me apaixonar

As tuas mãos fugidias quase aceitam as minhas
Que caçam escondidas cada dedo teu
Os olhos não entendem meus olhares
Não vêem que o problema é teu.

Os ciúmes disfarçados, a posse, a ordem,
É tudo detalhe que eu adoro ter, enfim.
Mas não sei se você sabe como eu sei que é
Que isso quer dizer algo mais a mim.

Acho na verdade, beija-flor,
que você ignora teus sentidos
E não percebe em pétalas de amor
Que com gritos, eu afago os teus ouvidos.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Conselho de mãe

Era manhã,
era escuro,
era manhã demais ainda.

Era quente,
era meu quarto,
era fechado demais ainda.

E minha mãe me disse, sábia:
-Coloca uma blusa, filho,
lá fora está frio.

E leve um cachecol,
vai esfriar ainda mais à tarde.
Deu no jornal.

Estava quente ainda,
era meu quarto,
e estava fechado demais.

Saí para o Sol sem nuvens
que despontava aos poucos na janela.
Saí atrasado demais.

- Leva uma blusa, filho,
nunca se sabe
a temperatura que pode fazer.

É muito imprevisto, filho,
no teu quarto tá quente porque tá fechado.
Lá fora pode estar frio.

Deu no jornal.

sábado, 8 de agosto de 2009

If a man does not make new acquaintances as he advances through life, he will soon find himself alone. A man should keep his friendships in constant repair.
Samuel Johnson (1709 - 1784)

Talvez seja assim, mesmo...

Era verão...



Na sombra era fresco e você
Era leve e bonita nos meus braços
Eu te mordia a boca, e nos abraços
Eu sonhava você e me perdia.

Era verão e eu via teu contorno
Quando andávamos na grama a dar risada
E sabia no fundo dos teus olhos
Que a paixão nunca ia dar em nada.

Mas não me importava, te beijava, me perdia,
Em cada canto dos pássaros eu ia
E me lançava ao vento com você

E você voava, a rainha,
Sobre os campos, sobre as flores, sobre o ar,
E era inevitável, na tua pele
Nos teus pés, no teu seio, não me apaixonar.

Em cada gole fresco de água fria
Eu bebia tua alma para dentro
E sentia você brotar, sentia,
E teus carinhos eu lembrava com o vento

Os banhos de rio eram teu corpo
A me envolver em cada canto, pela pele,
E aquela água do rio era o teu corpo
As tuas unhas, a tua fúria que não fere.

Percebia você nos meus lençóis
Depois que você já tinha ido
E ninguém nos saberia, pois a sós
Tínhamos dado razão ao sem sentido

E o que eu ainda não sentia, ansiava
Por sentir, por perceber, por aceitar
Se eu abria meus olhos eu te via,
E ao fechar meus olhos, te sonhava.

Em cada pedaço de pão que eu mordia
Era teu beijo, que minha fome saciava
E eu se não perdia, me encontrava
E se eu te achava, jamais me perderia.

Era tudo urgente e era perfeito
Nada tinha cara de passado
Era tudo presente e contrafeito
Eu te deixava à noite no teu quarto

Mas o tempo passou, e veio a chuva
Veio março, veio o mundo, veio a vida,
E por favor, menina, por mim não te perturba
Não é que tu não fosses mais querida.

As árvores, o sol, a grama, o campo
As frutas frescas a cair na nossa mão
Era tudo perfeito, e no entanto,
Meu amor, entenda, era verão.


video

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Nascimento






extraído de "escritos para um leão"

Do raio do Sol veio o sândalo.
E a escada de subir prà Lua
Escorregou nas crateras,
E eu fui dar nas estrelas,
Sem saber como ou porquê.
Minha mão fez carinho nas feras
Meus olhos pararam na orla
Do Sol amarelo do amanhecer.

E se alguém falar, acredita.


E se alguém falar
Que me ouviu pensar
De você,
Pode acreditar,
Deve ser verdade,
Até mesmo sendo
Sem querer.

Porque, na verdade,
Foi tanta amizade
Q’eu não consegui esquecer.

E se alguém pensar,
Que me ouviu falar pra mim
Do quanto eu sentia
Tanto a tua falta,
Acredita.
Deve ser, enfim,
Sempre foi assim.

E em cada letra
Que eu traçar vou lembrar
Da tua maneira de ler
Sem perceber
O que eu escondi por trás.

E cada letra vai querer dizer
O que eu não disse p’ra você nem vou dizer.
E nem você, quando eu disse, pôde ler.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009



"At the beginning, therefore, what is bad is
whatever causes one to be threatened with loss of love".
(Sigmund Freud)


terça-feira, 4 de agosto de 2009

E tranquila.


E o único dom que te deram, homem,
Transformas-te em maldição.

Fizeste da tinta negra o sangue
E da canção o fim das cordas
Do instrumento musical.

Escreveste o vitória das hordas
De bárbaros negros sobre cidades
Destruídas.

Criaste, com a tua pena, homem,
Um mundo de desespero e desamor.
E isso tudo, escritor saudoso,
Com tua letra fina, doce, aérea, plácida
E tranquila.

É proibido, te gritou o Céu,
Escrever.
É proibido dar a conhecer
A magia que jaz em cada letra.

Tu escreveste, homem,
E amaldiçoas-te, por isso, a raça humana.

E tudo isso com tua pena leve,
Com tua tinta branca,
Com tua letra fina, doce, aérea, plácida
E tranquila.

E este diamante de tortura
É o que tens de mais precioso em ti.
É o teu coração, um grande cristal de rocha
Que deixa passar a luz, e retém a sombra do mundo.

domingo, 2 de agosto de 2009

Tiros de vidro


O som é do piar de um passarinho que amanhece
E desafinado, ainda, aquece a voz.
É de uma criança que grita, desconhece
Que o fogo é quente e tira a mão, veloz.

É da pena que arranha o papel áspero,
É do poeta que escreve um áporo,
E do panfleto que descreve um arco
E cai no chão, sujo, abreviado.

O cheiro é do tempo que parou,
É da fruta que estragou, passada
E de um soneto que não vai ser entregue
E de uma carta que não vai dar em nada
É do que passou,
sem significação.

O sabor é azedo, de pretérito,
É de quem sabe que nunca merecerá
A medalha de honra a quem merece.
É da rima que ficou faltando,
E que podia ter surgido, natural.

É da palavra que fica na boca,
Porque se saísse, sincera, feriria,
Ou, mais amargo,
Da que saiu entre risadas,
Para não soar como verdade a ser tomada,
A ser temida.

A vista é de sol, que machuca,
Ou de noite de cidade grande,
Da noite que foi morta pela cidade grande.
E pelo esforço desta de criar em fábrica
Um dia vinte-e-quatro-horas.

O tato? O tato é de tiro.
Mas de um tiro delicado.
O tato é de tiro de vidro.
Que machuca sem ser assassino,
E faz questão de, transparente,
Deixar sobreviver.
É do tiro que se aloja sem ser detectado,
Para ter a liberdade de permanecer.
É do tiro que amanhece encravado
Que você não percebeu entrar,
Não percebeu que mora em ti
E não vai tentar tirar dalí.

O cheiro na verdade é de queimado,
O som é na verdade de esquecido,
O gosto é de fruta estragada,
O aspecto é de prédio construído,
E o furo, digo o tato,
O tato é de tiro de vidro.



"Ao vencedor, as batatas" (Machado de Assis)
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...e a impressão que fica é a de que se um 'presta' e 'é pra casar', então ficará solteiro. Não é de caso pensado, não. E não é proposital de forma alguma, é a Máquina do Mundo, são as engrenagens, com certeza são as engrenagens.

Trabalhe, sim, sim. O sucesso profissional na verdade é tudo. Porque ninguém nunca tece críticas por se estar solteiro. Ou, ao menos, não aos ouvidos de quem é. Tece-se pelas costas, mas o que se faz pelas costas não se vê e não se ouve. Não machuca, e o ego permanece intacto.

Depois da morte, talvez, se o sucesso profissional for muito expressivo, algum biógrafo pode vir a escrever: "sua vida pessoal é obscura e pouco se sabe sobre seus relacionamentos, exatamente o oposto do que acontece com sua obra poética".


sábado, 1 de agosto de 2009


[há planos de voltar a postar. logo.]