(Sim, sei, vocês não sabem de que estou falando porque a beleza desapareceu há muito tempo. Ela desapareceu sob a superfície do barulho - barulho das palavras, barulho dos carros, barulho da música - no qual vivemos constantemente. Está submersa como a Atlântida. Dela só restou uma palavra cujo sentido é a cada ano menos inteligível.)
[Milan Kundera]

domingo, 25 de janeiro de 2009

Anacronicamente enforcada

- Ela traiu!

- Ela traiu, gritava o rei, ela traiu!

E a população gritava “forca, forca”

“forca para a rainha!”

 

- Atenção, passageiros, tenham suas passagens à mão.

Dizia o condutor do trem industrial revolucionário.

 

A rainha chorava, e as feiras urravam

- Peixes mais baratos hoje, aproveitem, aproveitem!

E um balde de excrementos voava pela janela.

- Não traí! Teu irmão se aproveitou de mim,

Mas o filho, o filho que espero é teu!

 

- Atenção, passageiros, coloquem os cintos, vamos decolar.

 

“Forca” gritava o povo,

E o padre pregava em praça pública

- Piedade para o rei.

Respondia o povo: “forca”.

 

A bomba atômica atingia o teatro da cidade.

 

O carrasco vestia a touca, afiava a guilhotina.

Os tomates, na feira em promoção, eram anunciados

“mais baratos para o espetáculo do enforcamento da rainha!”

E uma criança nascia atrás da barraca de verduras.

 

- Ela traiu!

- Ela traiu, gritava o rei, ela traiu!

E a população em coro respondia meio a meio:

“Ela traiu, senhor!” e “forca para a rainha!”

 

E o poeta, de sua janela,

Observava o espetáculo da acrônica Idade das Trevas.

3 comentários:

Conceição Duarte disse...

Ela traiu? Mas quem não traí? kkkkkkkkkkkk E a forca? Ah... que judiação, que tempo maldito! Ainda bem que vivemos agora no século da traição, bjus CON

Conceição Duarte disse...

Ja está no meu blog, não só um dos seus poemas, mas dois! Adorei! Bjus CON DUARTE

Alice Salles disse...

Nossa!!!! Quantas imagens, virou um filme aqui na caixola.