(Sim, sei, vocês não sabem de que estou falando porque a beleza desapareceu há muito tempo. Ela desapareceu sob a superfície do barulho - barulho das palavras, barulho dos carros, barulho da música - no qual vivemos constantemente. Está submersa como a Atlântida. Dela só restou uma palavra cujo sentido é a cada ano menos inteligível.)
[Milan Kundera]

segunda-feira, 30 de março de 2009

Darwin

Enquanto não dá para sonhar com quem a gente quer, a gente sonha com quem está logo ali, disponível. Se o sorriso perfeito não aparece, vai aquele dos dentes certos, limpos. Dos lábios vermelhos e grandes, ou finos e fracos. Se a pele perfeita não vem, a que tem menos marcas vai servindo.

A tudo se adapta o bicho homem. Enquanto não aparecem as descargas com sensores, toca-se; e antes de tocar-se, latrina-se. Se devemos esperar pelas estrelas debaixo dum céu nublado, que seja, para tudo há jeito e a comida apropriada.

Se os caminhos da vida não são lá os mais esperados, os mais queridos, o que vale é sobre(viver), não é? Em poesia, em sonho, o sobre é que ganharia os parênteses. Isto é adaptação, isto é entender o caminho possível, é prosa.

As flores não vão nascer lindas, me disse uma vez uma cultivadora profissional de orquídeas, logo no primeiro ano. Elas desabrocham depois, e mesmo assim contando com muita atenção e cuidado. Ela tinha mais de mil orquídeas, menos de cem em flor.

Se viver é ordem, e deve ser, pois já o disseram um poeta e uma prosista, vive-se. Não se desobedece à lei, não se desacata às autoridades do Céu. Vive-se, adapta-se. 

Um comentário:

Conceição Duarte disse...

Parece o destino ser mais forte do que tudo em nós. Difícil lutar contra a maré, mas as vezes, lutamos contra tudo e contra todos, e conseguimos. Se não, melhor aceitar, a dor é menor.
Um beijo, CON