(Sim, sei, vocês não sabem de que estou falando porque a beleza desapareceu há muito tempo. Ela desapareceu sob a superfície do barulho - barulho das palavras, barulho dos carros, barulho da música - no qual vivemos constantemente. Está submersa como a Atlântida. Dela só restou uma palavra cujo sentido é a cada ano menos inteligível.)
[Milan Kundera]

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Brinca, criança, brinca!

Vai, filho, brinca!
Chuta a bola do mundo, faze a bola rolar!

Que o mundo rola como uma esfera
num campo de futebol

de futebol, sim
chutada pelos menos cultos
pelos menos sábios,
pelos menos preocupados em descobrir a verdade

o mundo e a bola não têm uma ordem criança
têm o acaso. Nem o acaso tem.

Não pára criança, quê me ouve?
Eu disse que deves brincar!
Brinca!
Brinca!

Eu não posso sorrir, criança
mas brinca a divertir-me com as minhas memórias
de quando eu acreditava que chutava a terra
que chutava Júpiter!

E eu chutava uma bola criança,
só uma bola
de meia.

Brinca como quem acredita no que vê
como quem não sabe o que vê
como quem vê o que quer
como quem não liga
como que... "don't care"

"Play, child, play"

E eu saio, sem um urso,
de pelúcia,
sem uma bola a chutar,
saio na bola,
na terra,
não nas mãos da fortuna,
mas nos pés
de um destino
que não é preocupado
em obedecer as estrelas.


Um comentário:

Ing disse...

Ga, passei aqui depois de muito tempo e... caramba, gostei muito, muito mesmo desse poema! Ainda vou ler em alguma récita na Sanfran =)

Beijos, Ing