(Sim, sei, vocês não sabem de que estou falando porque a beleza desapareceu há muito tempo. Ela desapareceu sob a superfície do barulho - barulho das palavras, barulho dos carros, barulho da música - no qual vivemos constantemente. Está submersa como a Atlântida. Dela só restou uma palavra cujo sentido é a cada ano menos inteligível.)
[Milan Kundera]

sexta-feira, 29 de maio de 2015

Sempre

Eu escuto o tempo todo:
    a língua não pode tudo.
    aquilo que gostaríamos de dizer é
               sempre
    i   n     a    t    i     n    g    í     v    e    l

Mas, mesmo gostando do silêncio
    como eu gosto.
Mesmo sabendo que há sentidos
     que só existem quando não
     se diz...
                 nada,          ainda assim

Eu quis acreditar que a língua
podia.        Tudo.

Ilusão.

São infinitas as vezes em que
   o que eu gostaria de dizer
            me               escapa e
   o que você não diz
            me               chega.
            Nítido. É
   que a língua não nos serve
          ela não se dá.

E tudo o que dizemos
    não chega à metade.

Queria que houvesse um jeito

de dizer. Te amo.

E quem ouvisse fosse
    o centro do teu peito.

Não há. Há pelo menos
teu ouvido. A ele apelo:

Diz a ela o que te digo
    faz com que ela escute
    no meio da vida

No coração da alma: Amor.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Valsa de Gaia

Tem a solidão do poeta, a paixão da chuva tardia
escultora da linha reta, que a luz percorre e esta via
salta do seu olho, é uma seta, o nascer do sol, mais um dia.

[A Fada Azul, Oswaldo Montenegro]

~

Como por obra de um narrador fantástico

Os ponteiros do relógio caminharam para trás.

Segundo por algum doce, segundo por segundo, se...

Se eu quisesse assim, bem devagar no tique e taque lento

e secreto, e carinhoso.


Um sol que desce para o leste

Uma lua que nasce mais cedo

A água de quem desesquece

Um afago pro poeta com medo.


Quase um traço de pintor ausente

Certo como quase nada por ser

Meus segredos, quase todos revelados

Sem palavra minha pra dizer.


Teu 'Sou' fia tudo em tua crença,

e se acredita hermético e sozinho

O sol tem sempre sua contraparte fêmea

Sua lua, sua estrela, sua terra. Gaia.

Passarinho.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

A Maria Montessori



Quero uma escola
Para o rosto infantil e torturado,
Para a esperança verdadeira e reprimida,
Para o esforço real e ignorado.

Quero uma escola
Para a vida possível e desejada,
Para o aprendizado livre e verdadeiro,
Para o ensino igual.

Quero uma escola
De busca e de alegria,
De perguntas e confiança,
De encontro e desafio.

Quero uma escola
De adultos e crianças,
De verdades e belezas,
Para a Paz e para a Vida.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Fragmentos de espiral


Todos os novos versos
as novas rimas
ou as novas ausências de rimas
são reedições de poemas antigos

todas as novas aventuras
são novidades falsas do que não houve
os novos interiores reescritos
os novos beijos iguais e tão molhados
quanto os do alto clero medieval
as novas transas iguais e tão molhadas
quanto as das freiras dos mosteiros espanhóis
todos os oxímoros confusões habituais
todas as frases de efeito
função fática
saída fácil
re-petição de piedade impressione-seporfavor

todos os novos erros justificados pela tentativa de mudar
são injustificáveis
porque são erros antigos repetidos

as qualidades cópias
os defeitos repetição
as palavras, rec-play
rec-play-rec... irrec-uperáveis
eternamente resgatados
repetidamente repetidos
rep RIP e ternamente

a poesia chegou ao seu extremo
ao seu delírio
à sua demência
à sua escultura
à sua desgrafia
à sua deseternidade fácil
à submersão no barulho
no silêncio
na imagem
no pisca-piscadasluzesestroboscópicas

mas este é seu curso natural
a sua pororóca
deprimente é o retorno da poesia
à sua inocência original
como uma prostituta
que se vista como uma princesa
ela se vê ridícula
mente bela
num mundo feio

ela retorna
as rimas retornam
os versos recontados tornam
a fazer novamente parte dos
poemas e as sequências de v
ersos são novamente contad
as para que tudo pareça cert
o num mundo errado em de
sespero, num mundo em qu
e cento e quarenta carácter
es são suficientes para mud
ar a vida de sabe-se lá quem

repete-se o que se diz em 1
40 caracteres, como se rep
ete o que se disse nos maio
res poemas do mundo, com
o se a beleza aos poucos pa
dessesse de um mal irrem
ediável: desenvolvimento.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Semáforos amarelos

Eu sonhei tanto

E tantas vezes tanto

E repetidamente o mesmo sonho e tanto

Que inevitavelmente

Havia de destruí-lo por dissolução no tempo


Por escadas de mil degraus é que se sobe

Ao infinito trampolim de desespero

E se sonhando a algum lugar se chega

É ao intermédio entre a escada e o salto ornamental


Cem mil pavios queimaram num instante

Toda a fé num profeta que não veio

Toda a esperança que já disse que não tenho

Todas as preces que eu nunca recitei


As estrelas cadentes caíram

Os trevos de quatro folhas murcharam

Ou foram comidos por pulgões famintos,

Ou atropelados por solas desatentas.


Num trem elétrico abandonei o campo

Os campos

E corri pelas avenidas infestadas

De luz, de almas penadas, de mil gritos,

E desesperei por tanto tempo

Que decidi, pacientemente,

Esperar.

Esperar tanto

Mas tantas vezes tanto

E repetidamente esperar tanto

Que a espera se dissolva no infinito.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Brinca, criança, brinca!

Vai, filho, brinca!
Chuta a bola do mundo, faze a bola rolar!

Que o mundo rola como uma esfera
num campo de futebol

de futebol, sim
chutada pelos menos cultos
pelos menos sábios,
pelos menos preocupados em descobrir a verdade

o mundo e a bola não têm uma ordem criança
têm o acaso. Nem o acaso tem.

Não pára criança, quê me ouve?
Eu disse que deves brincar!
Brinca!
Brinca!

Eu não posso sorrir, criança
mas brinca a divertir-me com as minhas memórias
de quando eu acreditava que chutava a terra
que chutava Júpiter!

E eu chutava uma bola criança,
só uma bola
de meia.

Brinca como quem acredita no que vê
como quem não sabe o que vê
como quem vê o que quer
como quem não liga
como que... "don't care"

"Play, child, play"

E eu saio, sem um urso,
de pelúcia,
sem uma bola a chutar,
saio na bola,
na terra,
não nas mãos da fortuna,
mas nos pés
de um destino
que não é preocupado
em obedecer as estrelas.


quarta-feira, 19 de maio de 2010

Vênus de Mim

Vênus de Milo ajudada pelo ângulo da luz,
Pétala de branca flor, acariciada pelo orvalho,
Garoa fina sobre um beijo apaixonado,
Mão que segue com medo a quem conduz.
_

Empresta-me por um só instante a alma
Num beijo encantador de dois instantes
Por um momento perde toda a tua calma
E te doa nos meus braços como amante

Num piscar de olhos, que se acabe.
Mas enquanto o olho pisca seja minha
Dá-me em despedida o beijo da minha vida
E depois se vá sozinha, e só, se cale.
(para me matar de dor).

Mas antes de ir seja só minha,
Antes de ir me dá teu ar,
Antes de ir respira em mim,
Antes de decidir estar sozinha.

Depois, se você não mais quiser teu beijo meu,
E preferir ser feliz longe daqui...

Mas ai, se você quiser ficar.
Vai que resolve nos fazer felizes
Você é a mulher bela que eu fiquei a procurar
O baú sem segredos, a esfinge.

Ah, Vênus de lis,

Vai ser a rosa mais branca e serenada de um jardim,
A musa bela dos poemas que não fiz,
A ausência de rasuras para mim.

Mas só se termina um beijo em um lamento,
E você será a minha vida tua,
Somente em um instante, por um momento,
Numa noite de garoas sob a lua.

quarta-feira, 3 de março de 2010

Literas Duras


Ela vem dos fundos das veias
Ela mora nas línguas cansadas
E nas mãos doloridas.
Ela respira o ar parado do tempo
E ela corre no redemoinhos das eras

Se sustenta dos olhos de homens
Se equilibra nas ansias e angústias
Perpetua-se no sofrimento e na dor
Eleva-se nas vitórias cantadas

Ela se esconde atrás de monumentos
Atrás de imortais heróis protetores.
E subexiste silenciosa e fria
Num mundo sem dor e sem sentido.

Ela chora, e ri, e geme, e grita
Ela dorme e acorda, e implora, e urra
Ela avança e retrocede e atira e perfura
Ela abençoa e assusta, e mata e cura.
Ela lentamente entra entre as alturas
Ela falsamente finge as sepulturas
Ela tece vagarosamente as tecituras
E nunca diz seu nome, literas-duras.

Homenagem a José Mindlin


Teus dez anos não vieram
Vieram os anos que você juntou
Das páginas da tua vida
Embora saibamos pouco
Sabemos das páginas lidas
Que você uniu e montou.
Foi quase um século de vida,
Muitos mais anos de histórias,
Nas linhas de uma vida lida,
Deixou em nós tua memória.
Tua imensa coleção,
Vem a nós, em luz, agora,
Vem ao nosso coração,
Onde o amor pelas Letras mora.
Irmão dos livros,
Médico de obras,
Dono de amigos,
Mestre de agoras.
Agradecemos de alma,
De coração, de verdade,
O presente da tua vida,
À nossa Universidade.

José Mindlin, o Imortal,
Que de imortais cuidou tanto,
Mindlin, universal.
José, o Brasiliano.


sábado, 20 de fevereiro de 2010

Ferro e carne - poema de amor



São goles de arame farpado, meu amor
Que eu me regozijo bebendo da tua voz.
São pregos, ferrugens, farpas velhas,
Repetitivos metais de outros romances.

Teus sussurros, todas tuas palavras,
Teus versos, esculturas cirúrgicas de aço.
Teus balés de voz, tuas danças de rimas
De ritmos, de vida, de paixão,
São redemoinhos de vergonha.

Todas tuas vidas, tuas personagens,
Tuas cortinas e tuas máscaras,
São máscaras de ferro, homem oculto,
São escuros vultos ad aeternum.

Tua mão, teus braços, são camisas
Fortes camisas que me vestem quando durmo,
E quando acordo, quando percebo,
Trancaram-me num sub-quarto mais escuro.

Teus beijos não são beijos, são lascivas vagas,
Tua saliva é pura lágrima de mar.
Teu chegar no meu pescoço
É guilhotina: a cair e aproximar.

Vampiro, vulto de escuros vendavais de silêncio.
Quando durmo sozinha nem assim te despercebo,
você é notável, como um rasgo na carne.

Teus lábios são duas grandes pétalas vermelhas
D'alguma rosa carnívora que nasce nos vasos do meu quarto.
Mas o beijo da tua boca, cravo,
É encravado de espinhos, e sangra.

Agridoce desejo de te olhar,
Vinagre, cítrico sabor nas feridas,
Teu abraço são mil ventos,
Frios, cortantes, ventos de noite,
A me envolver e me fazer dormir,
De novo.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Tratado sobre a inexistência do amor perfeito – em dois parágrafos.


É que na próxima esquina, seja ela quem for, surgirá o namorado. Pessoa pensava assim, ou Bernardo Soares, que é Pessoa com uma outra carteira de trabalho. E meu Mestre é Fernando Pessoa, ele foi o melhor poeta do mundo. Ele, oh, heresia, venceu Shakespeare. Ou, se posso dizer assim, é o equivalente latino do Bardo. O fato é que na próxima esquina surge o namorado e cada vez mais nos divertimos a montar os planos de ação já planejando a saída triunfal depois da derrota.
E quando não é assim, jamais encontraremos quem admiremos completamente. O príncipe encantado existe, mas quando chega de todas as suas batalhas, invariavelmente não teve tempo de tomar um bom banho. O mundo não é um palco. O mundo é um pano esquecido na janela.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

A Torre


Os meus sonhos têm o peso nítido de um castelo
De nuvens douradas, e que paira sobre minha cabeça.
A cada instante olho-os e os temo:

Acaso solidificar-se-iam?

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Estrelas

"There are no winds that can blow it away on the air
When they try to blow it away's when you know it will always be there,
So thank you, stars."
(Katie Melua)

Se de surpresa dois olhos se reúnem,
Se sem querer se distraem ao se olhar,
São disfarçados dois cristais que se procuram,
Que têm medo de pedir para se amar.

Quando dois olhos encontram por um par,
São mistérios e magia transcendentes
De acordar de um sonho e se notar
Que o mundo é mais ainda surpreendente
Do que o sonho que se tinha de se amar.

Dois olhos que se veem e se conhecem
São diamantes circundados pela face,
E estão seguros por esta fortaleza.

Mas dois olhos que juntos se amanhecem
São estrelas que juntas se renascem.
Furor e encanto que só por tua beleza
Se podia esperar que despertassem.

sábado, 2 de janeiro de 2010

Imperatriz

Vênus de Milo ajudada pelo ângulo da luz
Pétala de orquídea ensaiada bela pelo orvalho
Garoa fina sobre um beijo apaixonado
Mão que segue sem medo a quem conduz.
~

Empresta-me por um só instante a alma
Num beijo encantador, numa avalanche
Por um momento perde toda tua calma
E te doa nos meus braços como amante.

Num piscar de olhos, que se acabe.
Mas enquanto o olho pisca, seja minha,
Dá-me em despedida o beijo da minha vida
E depois se vá sozinha e, só, se cale.
(para me matar de dor)

Mas antes de ir seja só minha.
Antes de ir me dá teu ar.
Antes de ir, respira em mim a vida,
Antes de decidir estar sozinha.

Depois, se você não mais quiser teu beijo meu,
E preferir ser feliz longe daqui,
A minha boca ainda me fará sentir
Os lábios que, com sede, recebeu.

Mas ai, se você quiser ficar,
Se você resolve me fazer feliz,
Você é a mulher bela com quem só pude sonhar
A poesia mesma, como sempre a fiz.

Ah, imperatriz, se depois do beijo apaixonado desta noite,
Você ainda me quiser fazer feliz,
Vai ser minha para sempre e como se diz,
Vai ser rosa branca serenada num jardim,
A musa mais pura dos poemas que eu já fiz,
A ausência das rasuras, para mim.

Mas só se termina um beijo em um lamento,
E você será a minha vida tua,
Por um beijo, um instante, um só momento,
Numa noite de garoa sob a lua.

domingo, 20 de dezembro de 2009

Poema (Só)Lírico


Havia música, eu lembro, e o quebra nozes!
Havia vida, e festa e convidados
E os meus sentidos estavam todos vidrados
Em cada uma de tuas metamorfoses.

Da menina que chegou, a prima e a irmã
À bailarina que chamou minha'tenção
Da dançarina que girava e de manhã
Ainda me deixava louco de paixão

Até tua respiração pude notar
Se transformando com o tempo e a canção
E dentro do meu peito, quase em oração
A música tocava em ritmo de palpitar.

O teu nome até hoje eu não sei
Não perguntei, ninguém me disse, e eu não descobri
A impossibilidade me persegue, e eu te segui
E descobri onde mora, isso eu já sei.

A espessura dos teus lábios eu ganhei
E adivinhei com meus olhos anuviados
Cada milímetro teu eu já abracei
E te vi em mil sonhos acordados.

E nas pálpebras ficou tua impressão,
E me lembro, nos lábios, teu sabor.
E o frio de agora faz lembrar o teu calor,
E todo o tempo, em minha pele, a tua mão.

sábado, 19 de dezembro de 2009

A morena e a flor

~~~.~~~

Te via nua, morena,
numa rede ao lado de mim
E era pedir muito, pena,
que não caísse uma flor, e assim
Não te cobrisse em pudor
Cada fonte recondida de amor.

Era pedir muito, morena,
Não querer que se escondesse dos meus olhos
Tua boca, os teus lábios, os teus seios.
Era pedir muito, pequena,
Querer-te sempre a espera do meu beijo.

E o vento, como um pai para uma filha,
Te cubriu de pétalas de flor
E aos poucos, um lençol de rosas
Te fez inteira virgem de rubor.

Ai, morena,
Minha sede foi a chuva quem matou.
A tua, o orvalho da manhã.
Minha fome era de vida, morena,
Tua fome era maçã.

Ai, doce menina,
Minha saudade machucava o peito,
Tua inocência acordava o sol.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Canção numa teia

Teia_na_chuva.jpg

E eu, que tinha tantas esperanças
Aos poucos fui ficando sem nenhuma
Como um velho que contemplasse a própria sepultura
Que mandara fazer com tanto anelo.

Como um botão de lírio que ao brotar olhasse em volta
E só visse também as sepulturas
E esperasse um campo aberto, e verde, e vivo,
E só visse, também, mesmas injúrias.

Como um homem que acordasse inspirado
E descobrisse sua pena já ao meio,
E não achasse pedaço de papel em que escrever
E percebesse que a tinta já se foi.

Como um namorado que marcasse um casamento
E pela chuva, ele fosse cancelado.
Como um nadador que então se vê cansado
Depois de tantos metros de competição.

Eu não conseguiria respirar,
Como um mergulhador, que nadando de volta à superfície
Se supusesse já no ar, acima d'água
E tomando folego então visse
Que faltam ainda alguns mentros a passar.

Um inseto que voasse à sua flor
E em caminho, parasse numa teia
Vazia de aranha, só cheia de dor,
Como uma vida que é de tédio cheia.

Eu que plantava tantas flores
Aos poucos deixei de cultivar
As flores e esperanças dum amor
Dum botão que pudesse então brotar.

sábado, 5 de dezembro de 2009

Traduzindo Bandeira

Resolvi tomar vergonha e começar a traduzir. Tenho medo de que isso só me dê mais vergonha. O original do poema abaixo é o em português, do Manuel Bandeira. A tradução é minha, com o perdão do início de trabalho.

SONETO INGLÊS Nº 2 – Manuel Bandeira

Aceitar o castigo imerecido,
Não por fraqueza, mas por altivez.
No tormento mais fundo o teu gemido
Trocar num grito de ódio a quem o fez.
As delícias da carne e pensamento
Com que o instinto da espécie nos engana
Sobpor ao generoso sentimento
De uma afeição mais simplesmente humana.
Não tremer de esperança nem de espanto.
Nada pedir nem desejar senão
A coragem de ser um novo santo
Sem fé num mundo além do mundo. E então

Morrer sem uma lágrima, que a vida
Não vale a pena e a dor de ser vivida.

~~~~~~.~~~~~~

ENGLISH SONNET Nº2 – Manuel Bandeira (Trad. Gabriel Salomão)

To accept the undeserved castigation
Not for weakness but for pride
In the most profound misery your lamentation
Change for who did it on a hateful cry.
The luxuries of flesh and thinking
With which the species' instinct does fool us
Underrate for the unselfish feelings
Of the simplest of human affections.
Not to shiver for fear or hope
Nothing ask or fancy that is not
The bravery of being a further pope
Lacking faith on a world beyond this orb. And so

To die without a tear, 'cause life
Doesn't worth the pain and sorrow of the lifetime.


segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Odisséia de um homem ridículo


-Marcelo de Campos Soares Dias
-Telefone?
-55 11 67589098
-Endereço?
-Até 1992, Rua Campos D'arte, 8657. Depois, até 1997, Rua Olga Maria Neves, 886. De 97 até -semana passada Rua Humberto Gomes Lima, 935. Até hoje, Avenida Leônidas de Mello, número 22.
-Referência para contato?
-Tia-avó, Maria Augusta, 11 55 67546543.
-Por favor, preencha este formulário na próxima meia hora e entregue-o na portaria 23, segundo corredor à esquerda.

“Nome: Marcelo de Campos Soares
Sobrenome: Dias
Telefone: 55 11 67589098
Endereço: Av. Leônidas de Mello, 22.
Número de protocolo: (Marcelo não tinha um número de protocolo)”.

-Por favor...
-Entre na segunda fila à esquerda, por favor.
-Por favor...
-Na segunda fila à esquerda, por gentileza.
-Por favor...
-Na segunda fila à esquerda, senhor.
Cenário: segunda fila à esquerda.
-Sim, dona Camélia?
-Oi querida, eu gostaria de pedir uma quinta via da minha carteira de identidade. Com a idade a gente vai perdendo as coisas, sabe? Outro dia mesmo fui à casa de minha sobrinha e deixei, imagine, querida! Deixei meus óculos sobre a pia! Sobre a pia, veja se pode! Ainda se fosse sobre a mesa, ou sobre algum criado mudo, mas sobre a pia, acredita, querida? Fui lavar o rosto e deixei meus óculos. Oh, como tenho medo da velhice, querida...
-Dona Camélia, a senhora sabe que...
-Oh sim, querida, eu conheço todos os procedimentos, sim. Mas você sabe, querida, estou tão cansada disso tudo. Será que não daria para adiantar um pouco toda esta burocracia? Outro dia mesmo vi no jornal que perdemos mais tempo nas filas dos serviços públicos neste país do que se gasta em qualquer lugar do mundo, imagine, querida, imagine! Como se eu tivesse tanto tempo sobrando. Oh, outro dia mesmo ligou-me minha filha dizendo “mãe, será que a senhora poderia ficar com o Pedro esta tarde?” Pedro é meu neto, querida, e claro, eu fui obrigada, imagine, obrigada a responder que não podia! Imagine. Eu, sabe minha querida, tenho uma agenda. E não consigo fazer coisas assim em cima da hora, será que não daria para adiantar um pouco tudo isso?
-Me desculpe dona Camélia, mas...
-Oras, não se desculpe, minha querida, não se desculpe, é seu trabalho, eu sei. Você deve seguir as ordens não é? É assim com todos nós ao fim. Todos seguimos as ordens de alguém, não é? Você segue as do seu chefe, eu sigo as suas, seu chefe deve seguir algumas também, talvez de uma mulher como você ou como eu. No fim todos seguimos regras, mas veja, sim, tente adiantar isso para mim, sabe que sou ocupada e que não posso ficar um dia inteiro aqui com você. Não me entenda mal, sim? Adoro sua companhia e adoraria recebê-la em casa. Você tem meu endereço, sim? Mas não posso ficar o dia todo aqui, entende, minha querida? Se nem conversar ou tomar conta do meu neto eu posso, que dirá ficar numa fila o dia todo, não é assim, querida? Deve haver alguma maneira, tenho 65 anos, você sabe, temos alguns direitos.
-Senhora, por favor vá para a fila à sua direita depois de preencher este formulário.
-Oh, mas minha querida, não acabei de lhe dizer que deixei meus óculos sobre a pia da casa de minha filha, não? Ia pegá-lo de volta se tivesse recebido meu querido neto, mas não pude entende, e não estou com meus óculos aqui comigo, querida.
-A senhora pode pedir ajuda a um de nossos assistentes, alí à direita.
-Oh, sim, claro. Muito obrigada, querida, você foi de muita ajuda, isto sairá mais rápido desta vez, não é? Obrigada querida, você é sempre muito gentil, querida. Até mais.
-Até, dona Camélia. Próximo por favor.
-Sou eu.
-Sim, é você. Nome?
-Marcelo de Campos Soares Dias, mas...
-Telefone?
-55 11 67589098, mas, por favor...
-Sim?
-Eu preciso de um número de protocolo.
-Oh, porque não disse logo? Vê aquela placa à sua esquerda? Aquela é a fila para protocolos. -----Próximo, por favor.
Cenário: fila para protocolos.
-Por favor...
-Final da fila, senhor.
-Sim, mas por favor...
-Sim, senhor?
-Aqui é a fila para protocolos, sim?
-Sim. Final da fila, senhor.
-Nome?
-Adelina da Cruz Santos Alves.
-Aqui está, obrigada.
-Nome?
-Álvaro Dias.
-Você estregou o papel verde preenchido?
-Sim, mas não com o selo.
-Ah, claro. Por que fazem isso? Um instante. Paaaaaulo, a pasta 12. O nome de novo, por favor.
-Álvaro Dias.
-Aqui está, quarta fila à direita, depois da placa laranja. Próximo.
-Sou eu.
-Nome?
-Moça, antes...
-Nome, por favor?
-Marcelo de Campos Soares Dias, mas não...
-Não o quê, meu senhor?
-Eu gostaria de um número de protocolo, por favor.
-Sim, todos nesta fila, se o senhor puder fornecer o seu CPF e me dizer o assunto do seu protocolo, poderei lhe fornecer o número, é claro.
-Meu CPF é _ e o assunto é uma segunda via da carteira de trabalho.
-Desculpe, mas o senhor leu a placa?
-Lí, sim senhora.
-E o que leu?
-Protocolos.
-Pois não, e leu também “carteiras de trabalho”?
-Não senhora.
-Então pegue a quinta fila à direita, depois da placa laranja, e retire o formulário azul, volte aqui em seguida, sim?
-Sim, senhora.
Cenário: quinta fila à direita.
-Nome?
-Marcelo de Campos Soares Dias.
-Assunto?
-Segunda via de carteira de trabalho, preci...
-O senhor perdeu a anterior?
-Sim.
-Irresponsável. Assine aqui, aqui e nesta folha por favor.
-Aqui está.
-Preencha este formulário, sim, e entregue para mim.

“Nome: Marcelo de Campos Soares
Sobrenome: Dias
Telefone: 55 11 67589098
Endereço: Av. Leônidas de Mello, 22.
Último local de trabalho: Farmamil Farmácia LTDA, 1999”.

-Obrigada. Aqui, leve este formulário ao quinto guichê à esquerda, depois da placa laranja, sim?
-Obrigado.
Cenário: quinto guichê à esquerda , depois da placa laranja.
-Nome?
(Entrega do formulário)
-Nome?
-Marcelo de Campos Soares Dias.
-Idade?
-47
-Estado civil?
-Solteiro.
-Filhos?
-Três.
-Idade dos filhos?
-13, 10 e 9.
-Altura?
-1,80.
-Peso?
-98 quilos.
-Alguma deficiência?
-Míope.
-Quantos graus?
-Três no olho direito, dois no esquerdo.
-Não classificamos como deficiência, a menos que se tenha de nove graus para mais.
-Não sabia.
-Alguma outra deficiência?
-Não.
-Atividade profissional que exerce?
-Vendedor.
-Há quantos anos?
-12.
-Assine aqui, aqui e nesta folha, por favor.
-Pronto.
-Obrigada. Leve este, este e este papel para a fila de protocolos, sim?
-Obrigado.
-Cenário: fila de protocolos.
-Nome?
-Marcelo de Campos Soares Dias
-Documentos?
-Aqui.
-Número 857.653.826-8
-A senhora pode anotar?
-857.653.826-8
-Obrigado.
-Marcelo completa o primeiro formulário e vai para a portaria 23.
-Cenário: portaria 23.
-Formulário?
-Aqui.
-Que documento o senhor precisa?
-Segunda via de carteira de trabalho.
-Primeira via perdida?
-Sim.
-Irresponsável. Número para cancelamento?
-Um instante. 184.68.
-Cancelada, sua segunda via sai e dez minutos, queira aguardar no fim da fila com esta ficha, sim?
-Obrigado.
-A ficha, senhor?
-Aqui.
-Sua segunda via, obrigado por aguardar, a prefeitura de São José do Bom Jesus de Piraciba deseja um bom dia.

- Desculpe, acho que é a sua senha.
- Oh, é mesmo, muito obrigado.

- ... Esta agora é boa! Dormir em repartições públicas.

sábado, 28 de novembro de 2009

Acidente no mar



"My library
Was dukedom large enough."
[The Tempest, 1. 2]

Nascia atrás de um monte um sol azul escuro e frio
E nuvens de concreto paraivam sobre o mar
Foi numa noite dessas que dentro de um navio
Pude ver com frio o mar a mim se armar
E numa onda bravia e furiosa de Netuno,
lançou-se o oceano contra minha embarcação
E tive, respirando, a impressão da morte
E na sacola ao ombro carregava o coração.

Há muito o coração fora deixado.

Um vento furioso atingiu em cheio minhalma
E eu vi num clarão um raio fúnebre
Atingiu rápido as águas e a eletricidade
Se espalhou por sobre as brumas
Como a escuridão que se lança das sombras
E é detida pela luz do sol.

Gritava furiosamente, eu.
E nada me ouvia, além do meu coração
Na sacola, guardado na sacola.

Os gritos do mar, porém, todos ouviam,
e fui noticiado no jornal:
homem morre depois de acidente no mar,
suspeita-se de suicídio.

Mas ninguém também aí ouviu meu grito
Para todos raiava um sol verde concreto.
Para todos as nuvens eram de aço
E a luz era a das televisões.

Para ninguém havia meu mar,
A fúria, o desespero, o medo.
Para ninguém havia
Tudo aquilo que eu sentia tanto.
Porque dentro de cada alma viva
Só dominava a quietude desesperada
Do desassossego.

- Com licença, eu vou descer no próximo ponto...