(Sim, sei, vocês não sabem de que estou falando porque a beleza desapareceu há muito tempo. Ela desapareceu sob a superfície do barulho - barulho das palavras, barulho dos carros, barulho da música - no qual vivemos constantemente. Está submersa como a Atlântida. Dela só restou uma palavra cujo sentido é a cada ano menos inteligível.)
[Milan Kundera]

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Semáforos amarelos

Eu sonhei tanto

E tantas vezes tanto

E repetidamente o mesmo sonho e tanto

Que inevitavelmente

Havia de destruí-lo por dissolução no tempo


Por escadas de mil degraus é que se sobe

Ao infinito trampolim de desespero

E se sonhando a algum lugar se chega

É ao intermédio entre a escada e o salto ornamental


Cem mil pavios queimaram num instante

Toda a fé num profeta que não veio

Toda a esperança que já disse que não tenho

Todas as preces que eu nunca recitei


As estrelas cadentes caíram

Os trevos de quatro folhas murcharam

Ou foram comidos por pulgões famintos,

Ou atropelados por solas desatentas.


Num trem elétrico abandonei o campo

Os campos

E corri pelas avenidas infestadas

De luz, de almas penadas, de mil gritos,

E desesperei por tanto tempo

Que decidi, pacientemente,

Esperar.

Esperar tanto

Mas tantas vezes tanto

E repetidamente esperar tanto

Que a espera se dissolva no infinito.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Brinca, criança, brinca!

Vai, filho, brinca!
Chuta a bola do mundo, faze a bola rolar!

Que o mundo rola como uma esfera
num campo de futebol

de futebol, sim
chutada pelos menos cultos
pelos menos sábios,
pelos menos preocupados em descobrir a verdade

o mundo e a bola não têm uma ordem criança
têm o acaso. Nem o acaso tem.

Não pára criança, quê me ouve?
Eu disse que deves brincar!
Brinca!
Brinca!

Eu não posso sorrir, criança
mas brinca a divertir-me com as minhas memórias
de quando eu acreditava que chutava a terra
que chutava Júpiter!

E eu chutava uma bola criança,
só uma bola
de meia.

Brinca como quem acredita no que vê
como quem não sabe o que vê
como quem vê o que quer
como quem não liga
como que... "don't care"

"Play, child, play"

E eu saio, sem um urso,
de pelúcia,
sem uma bola a chutar,
saio na bola,
na terra,
não nas mãos da fortuna,
mas nos pés
de um destino
que não é preocupado
em obedecer as estrelas.


quarta-feira, 19 de maio de 2010

Vênus de Mim

Vênus de Milo ajudada pelo ângulo da luz,
Pétala de branca flor, acariciada pelo orvalho,
Garoa fina sobre um beijo apaixonado,
Mão que segue com medo a quem conduz.
_

Empresta-me por um só instante a alma
Num beijo encantador de dois instantes
Por um momento perde toda a tua calma
E te doa nos meus braços como amante

Num piscar de olhos, que se acabe.
Mas enquanto o olho pisca seja minha
Dá-me em despedida o beijo da minha vida
E depois se vá sozinha, e só, se cale.
(para me matar de dor).

Mas antes de ir seja só minha,
Antes de ir me dá teu ar,
Antes de ir respira em mim,
Antes de decidir estar sozinha.

Depois, se você não mais quiser teu beijo meu,
E preferir ser feliz longe daqui...

Mas ai, se você quiser ficar.
Vai que resolve nos fazer felizes
Você é a mulher bela que eu fiquei a procurar
O baú sem segredos, a esfinge.

Ah, Vênus de lis,

Vai ser a rosa mais branca e serenada de um jardim,
A musa bela dos poemas que não fiz,
A ausência de rasuras para mim.

Mas só se termina um beijo em um lamento,
E você será a minha vida tua,
Somente em um instante, por um momento,
Numa noite de garoas sob a lua.

quarta-feira, 3 de março de 2010

Literas Duras


Ela vem dos fundos das veias
Ela mora nas línguas cansadas
E nas mãos doloridas.
Ela respira o ar parado do tempo
E ela corre no redemoinhos das eras

Se sustenta dos olhos de homens
Se equilibra nas ansias e angústias
Perpetua-se no sofrimento e na dor
Eleva-se nas vitórias cantadas

Ela se esconde atrás de monumentos
Atrás de imortais heróis protetores.
E subexiste silenciosa e fria
Num mundo sem dor e sem sentido.

Ela chora, e ri, e geme, e grita
Ela dorme e acorda, e implora, e urra
Ela avança e retrocede e atira e perfura
Ela abençoa e assusta, e mata e cura.
Ela lentamente entra entre as alturas
Ela falsamente finge as sepulturas
Ela tece vagarosamente as tecituras
E nunca diz seu nome, literas-duras.

Homenagem a José Mindlin


Teus dez anos não vieram
Vieram os anos que você juntou
Das páginas da tua vida
Embora saibamos pouco
Sabemos das páginas lidas
Que você uniu e montou.
Foi quase um século de vida,
Muitos mais anos de histórias,
Nas linhas de uma vida lida,
Deixou em nós tua memória.
Tua imensa coleção,
Vem a nós, em luz, agora,
Vem ao nosso coração,
Onde o amor pelas Letras mora.
Irmão dos livros,
Médico de obras,
Dono de amigos,
Mestre de agoras.
Agradecemos de alma,
De coração, de verdade,
O presente da tua vida,
À nossa Universidade.

José Mindlin, o Imortal,
Que de imortais cuidou tanto,
Mindlin, universal.
José, o Brasiliano.


sábado, 20 de fevereiro de 2010

Ferro e carne - poema de amor



São goles de arame farpado, meu amor
Que eu me regozijo bebendo da tua voz.
São pregos, ferrugens, farpas velhas,
Repetitivos metais de outros romances.

Teus sussurros, todas tuas palavras,
Teus versos, esculturas cirúrgicas de aço.
Teus balés de voz, tuas danças de rimas
De ritmos, de vida, de paixão,
São redemoinhos de vergonha.

Todas tuas vidas, tuas personagens,
Tuas cortinas e tuas máscaras,
São máscaras de ferro, homem oculto,
São escuros vultos ad aeternum.

Tua mão, teus braços, são camisas
Fortes camisas que me vestem quando durmo,
E quando acordo, quando percebo,
Trancaram-me num sub-quarto mais escuro.

Teus beijos não são beijos, são lascivas vagas,
Tua saliva é pura lágrima de mar.
Teu chegar no meu pescoço
É guilhotina: a cair e aproximar.

Vampiro, vulto de escuros vendavais de silêncio.
Quando durmo sozinha nem assim te despercebo,
você é notável, como um rasgo na carne.

Teus lábios são duas grandes pétalas vermelhas
D'alguma rosa carnívora que nasce nos vasos do meu quarto.
Mas o beijo da tua boca, cravo,
É encravado de espinhos, e sangra.

Agridoce desejo de te olhar,
Vinagre, cítrico sabor nas feridas,
Teu abraço são mil ventos,
Frios, cortantes, ventos de noite,
A me envolver e me fazer dormir,
De novo.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Tratado sobre a inexistência do amor perfeito – em dois parágrafos.


É que na próxima esquina, seja ela quem for, surgirá o namorado. Pessoa pensava assim, ou Bernardo Soares, que é Pessoa com uma outra carteira de trabalho. E meu Mestre é Fernando Pessoa, ele foi o melhor poeta do mundo. Ele, oh, heresia, venceu Shakespeare. Ou, se posso dizer assim, é o equivalente latino do Bardo. O fato é que na próxima esquina surge o namorado e cada vez mais nos divertimos a montar os planos de ação já planejando a saída triunfal depois da derrota.
E quando não é assim, jamais encontraremos quem admiremos completamente. O príncipe encantado existe, mas quando chega de todas as suas batalhas, invariavelmente não teve tempo de tomar um bom banho. O mundo não é um palco. O mundo é um pano esquecido na janela.