(Sim, sei, vocês não sabem de que estou falando porque a beleza desapareceu há muito tempo. Ela desapareceu sob a superfície do barulho - barulho das palavras, barulho dos carros, barulho da música - no qual vivemos constantemente. Está submersa como a Atlântida. Dela só restou uma palavra cujo sentido é a cada ano menos inteligível.)
[Milan Kundera]

sábado, 31 de janeiro de 2009

NEGANDO A MAÇÃ

O RETORNO AO ÉDEM DO PONTO DE VISTA TEOSÓFICO

 

Está no livro sagrado cristão que por comerem do fruto da árvore proibida, Adão e Eva foram expulsos do Paraíso.

Inicialmente é necessário entendermos qual é o fruto proibido do qual Eva e Adão comeram. É muito comum encontrarmos quem acredite no que pode ser chamado Mito da Maçã. Sem razão aparente, há um mito de que o fruto da árvore do Conhecimento do Bem e do Mal era uma maçã vermelha, quem sabe parecida com a da Branca de Neve.

Sem distinguirmos uma metáfora de uma realidade não podemos continuar nosso estudo.

O tal fruto não tem nome nem forma, o Escritor esqueceu-se de mencioná-los ou, quem sabe, omitiu este detalhe justamente para que perce- becemos não haver fruto algum. O que há é uma indicação do princípio do julgamento e do processo de valoração.

Isto sim expulsou o homem do Paraíso, afastou o homem do Um.

A Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal também não era uma árvore e a Serpente também não era uma serpente[1].

A macieira abíblica era, na verdade, a possibilidade de aderirmos à ilusão da dualidade. A Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal é, em síntese, a matriz da diferenciação dicotômica de bem e mal, bom e ruim, feio e belo, puro e sujo, certo e errado.

Aquele que atinge um grau mais alto de consciência, ou mesmo aquele que despende parte de seu tempo a pensar sobre questões maiores, percebe que toda dicotomia é limitada e não leva o raciocínio humano muito longe.

Aquele que divide as coisas segundo dois valores não pode discernir o Um.

A serpente mencionada no mito é somente a tendência do ser humano de aceitar o que é mais fácil. Não proibido, nem errado, mas mais fácil de se conseguir.

A divisão de tudo entre dois valores, o fruto proibido, é uma fase da infância que deve ser respeitada. Esta mesma fase pode se estender por toda uma vida e ainda assim deve ser respeitada, cada ser tem sua evolução e esta tem uma infância que pode durar muitas vidas.

No entanto àquele que procura compreender a Natureza e a Sabedoria Divinas, não é recomendável que se deixe iludir por conceitos qualitativos infantis. Àquele que deseja de fato ser um Teósofo, não se diz para entender tudo sob o prisma do certo x errado.

É necessário que compreendamos, na verdade, que a dicotomia não é algo que não deva ser utilizado por razões quaisquer e desconhecidas, mas sim algo moderno, no sentido de eternidade, criado pelo homem e para o homem. É portanto, posterior ao Um e não se aplica à Sua natureza, não devendo ser utilizada por aqueles que A buscam.

Quando a bíblia nos diz que Deus avisou a Adão e a Eva que não comessem da Árvore, não lhes dizia, como pensa-se hoje, para não praticarem um ato carnal (chamado posteriormente de pecado original).  Deus lhes dizia que não começassem a diferenciar na Natureza o que é bom do que é ruim, pois Ele havia criado tudo com pureza, com a Sua pureza.

Caso o Homem desejasse valorar as coisas, começaria a retirar delas a pureza conferida por alguém maior. Nós não deveríamos dicotomizar o mundo justamente para não acabarmos com a pureza conferida por Alguém a nós mesmos.

Quando o Homem divide em dois tudo o que encontra, termina por não encontrar a Unidade que habita em todas as coisas, de maneira subjacente.

Todo ser tem em si uma partícula divina que não se altera com o passar das eternidades[2], no entanto, quando o ser humano divide-se em raças, em classes e em seres bons e maus, perde a capacidade de enxergar, em todos, semelhantes seus.

O primeiro e mais importante Ideal da S.T. é a Fraternidade Universal. Como um ser que divide outros seres em subgrupos poderá verdadeiramente atingir este ideal?

Entendemos que por meio da Fraternidade Universal e outros princípios, encontraremos a Verdade latente em todas as religiões e filosofias, daí não as dividirmos e descriminarmos negativamente. Quando tudo deixar de ser dividido em grupos, ter-se-á atingido um estado verdadeiro de maior pureza e maior proximidade com o Um.

In princípio, disse a Bíblia, erat Verbum. Num próximo texto essa frase será explorada com maior profundidade, por enquanto nos interessa o significado cristão de Verbo. A Palavra é a sabedoria divina (Teosofia), é Deus em sua totalidade. No principio, portanto, era Deus.

Veja que não se diz era UM deus, era UMA palavra, era UM Verbo. No princípio era o Verbo porque ele ainda era indivisível. Depois vieram os planetas, as estrelas, a luz, a terra, o homem, a proibição lendária e a infração da única regra imposta ao homem. Infração esta que o levou ao limbo do raciocínio, ao lodo da razão, e o fez ficar preso para quase sempre no terreno de um manásika maya tentador.

Ilusão esta a que chamamos conhecimento, longe está este do Conhecimento que almejamos. E este último, em contrapartida àquele, só poderá ser alcançado quando a razão for deixada de lado.

Quando o raciocínio for abandonado, não para descermos a graus ainda mais inferiores, como a paixão, mas para subirmos a graus superiores, como o da Intuição, aí sim o Homem poderá começar a perceber a trilha que o levará de volta ao Édem.

É uma trilha longa, sem a menor dúvida, e uma trilha que pode levar várias vidas. No entanto este tempo e estas vidas passarão de uma forma ou de outra, trilhemos nós o Caminho ou não.

Cabe a cada um ver o que lhe serve melhor. Se o caminho do conhecimento lhe for o mais atraente, que assim seja e que, na ilusão, se faça uma aparente felicidade para este homem.

Para aquele que decidir trilhar o Caminho longo de retorno ao Édem, de retorno, quem sabe, ao Verbo, H.P.B. deu boas instruções em A Voz do Silêncio quando disse:

 

Acautela-te, não vás pousar um pé ainda sujo no primeiro degrau da escada’.

 

Paz a todos os seres.

 



[1] A metáfora da Serpente pode ser encontrada em ‘A Voz do Silêncio’ 1º Fragmento, por H.P. Blavatsky

[2] O termo eternidade é utilizado em seu sentido menos usual, a eternidade hindu, que dura um grande, porém determinado, número de anos.

domingo, 25 de janeiro de 2009

Carta a São Paulo (Cidade Absoluta)

Montanhas verticais de concreto,

Mar etéreo de vida e morte acinzentadas!

Muros, muralhas, como vos amo, paredes gigantescas!

Veias de aço ensangüentadas de luz elétrica.

 

Acredito em deus quando vejo teus prédios altos na Avenida Paulista!

Vejo os anjos refletidos nas imensas paredes de espelho dos arranha céus

Que levam aos portões do paraíso. E ao inferno, em seus estacionamentos.

Acredito em demônios quando vejo o sangue dos acidentes das tuas esquinas absurdas

Quando as pessoas seguem, quando não sorriem porque são duras como você, cidade absoluta, porque são da mesma pedra dos teus edifícios a perder de altura.

 

Metrópole alucinógena e alucinada, quando você respira, metrópole mundial?

Quando teus números stagnam, teus semáforos emperram e teus trens se tornam paraplégicos, cidade assustadora? Nunca!

Você nunca para, você vive do teu próprio movimento, cidade cinética!

 

Se um vírus infecta teu organismo audacioso, morre atropelado pelos glóbulos elétricos e poluentes, caminhões, carros, motocicletas.

As doenças em ti não duram, cidade infectada, pois que você é mais doente que as patologias que te afetam, e vence-as todas com teus delírios e alucinações.

Verde, amarelo, vermelho, verde, amarelo, vermelho, luzes piscam frenéticas frente às tuas vistas,

Correm rios de lâmpadas brancas e vermelhas, como numa artéria, sem repouso.

Tuas grotescas vias e teus veículos ciclópicos de duas rodas e uma só tormenta,

Tuas peças de xadrez em guerra atômica, uma contra cada uma das outras,

E você, tabuleiro imenso, sobrevive.

 

Você grita, com o pouco oxigênio que te sobra você grita, cidade adolescente.

Teus braços comerciais se movem em êxtase e loucura, socorro, você grita, pois que cresce e é mais do que você mesma pode suportar.

Teu próprio peso de placa tectônica é grande demais para teus suportes de carbono e aço

Você não suspira, cidade violenta, você urra, berra, você implora e você morre, cidade-espanto de roupas cinzas e olhos pretos.

 

Você morre e renasce de ti mesma, cidade-antítese, cidade-paradoxo,

oxímoro hipertrofiado!

Morre, cidade infeliz, e explode dentro de ti mesma, na vida que não consegue conter no teu útero abortado de mãe violentada!

E então da à luz tua própria natureza, tuas próprias árvores de fios de cobre retorcidos, de destroços velhos de ônibus queimados, de fumaça, trânsito e miséria!

 

E eis que te ilumina, cidade escancarada, a força de quem te faz infernal e insuportável nos meios-dias de domingo.

E nas sombras com ar condicionado, encontram-se quadros, teatros, livros, professores, filmes, palestras, discussões, recitais, corais, e mil, mil pessoas de cada vez, piscam tentando absorver-te o brilho, cidade-diamante.

 

Dura, impetuosa, fria e absurda, renasce mais uma vez, cidade absoluta.

Quantas outras quatrocentas e cinqüenta e cinco vezes você terá que renascer até que aprendam todos que te vêem, é a melhor e reina superior.

Egoísta, gigantesca, monstro absurdo de pedra,

É a melhor e reina superior, esplendorosa, debaixo de tuas tempestades e enchentes, por cima dos terremotos, até eles vieram tentar contra você!

 

Mas você é quimérica, cidade. Você vence todas as forças antropo-criadas ou naturais, todas as forças ajoelham aos teus pés, São Paulo absoluta, e você as pisa com altivez e superioridade.

 

O importante para você, coisa abrutalhada, é que as engrenagens girem sempre na velocidade certa, e você não pare nunca de trabalhar, entre gritos, urros e choros, você continua, mãe violentada, a abençoar todos que te querem como madre pétrea.

Anacronicamente enforcada

- Ela traiu!

- Ela traiu, gritava o rei, ela traiu!

E a população gritava “forca, forca”

“forca para a rainha!”

 

- Atenção, passageiros, tenham suas passagens à mão.

Dizia o condutor do trem industrial revolucionário.

 

A rainha chorava, e as feiras urravam

- Peixes mais baratos hoje, aproveitem, aproveitem!

E um balde de excrementos voava pela janela.

- Não traí! Teu irmão se aproveitou de mim,

Mas o filho, o filho que espero é teu!

 

- Atenção, passageiros, coloquem os cintos, vamos decolar.

 

“Forca” gritava o povo,

E o padre pregava em praça pública

- Piedade para o rei.

Respondia o povo: “forca”.

 

A bomba atômica atingia o teatro da cidade.

 

O carrasco vestia a touca, afiava a guilhotina.

Os tomates, na feira em promoção, eram anunciados

“mais baratos para o espetáculo do enforcamento da rainha!”

E uma criança nascia atrás da barraca de verduras.

 

- Ela traiu!

- Ela traiu, gritava o rei, ela traiu!

E a população em coro respondia meio a meio:

“Ela traiu, senhor!” e “forca para a rainha!”

 

E o poeta, de sua janela,

Observava o espetáculo da acrônica Idade das Trevas.

domingo, 18 de janeiro de 2009

Gás

Esperei o meu homem sair,

Tomei banho, arrumei-me bem.

Retoquei maquiagem, troquei os brincos.

Penteei meu cabelo com mais cuidado.

 

Botei blusa nova, sapato novo,

Passei batom, hidratante e perfume.

Liguei pràs amigas, combinei cinema,

Jantar, danceteria e asilo.

 

Arrumei a cama, arrumei os vasos,

Ele sempre gostou muito do jeito

Como eu sempre arrumei os vasos.

 

Limpei a sala, os quartos e seus livros.

Passei pano nas estantes, nos móveis,

Escova no sofá, nas poltronas

E escovei os dentes.

 

Deixei três camisas passadas no armário,

Duas calças nos cabides e cinco gravatas.

Abri dois pacotes novos de meias,

Deixei roupas discretas limpas e guardadas.

 

O tênis do fim de semana, das caminhadas,

Deixei tomando um pouco do sol do dia.

Também deixei dois lençóis, brancos, macios.

Dois lençóis dos que ele mais gosta, um na cama,

Um no armário, cheiroso como se fosse novo.

 

Deixei sopa na geladeira, um pouco de arroz,

Dois bilhetes na porta branca, bilhetes brancos

Com instruções, telefones de faxineira,

Rotssérries e pizzarias.

 

Ajoelhei na frente do fogão, para ver uma torta,

Se estava pronta para o meu marido.

Tirei a torta, mas deixei o fogão aberto, respirava.

Desliguei o fogo sem desligar o gás.

 

Ouvia seu carro à frente de casa, as palavras,

Avisando como sempre, que chegava e queria comida.

Sobre meus sapatos altos e pretos, com meu vestido,

De renda e decote, que mostrava o que devia.

 

E com a mala nas costas

Virei pro meu homem e disse:

Amor, nosso gás acabou.

 

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

E se você sumiu, liga não.

E se você sumiu, liga não.

Toda fotografia tem esse final.

Um dia some do álbum, da lembrança,

Um dia some a esperança de um final

Feliz.

Cool it!

O título deste post refere-se abertamente ao título do livro de Bjorn Lomborg seguinte ao qual o autor subtitula: O Guia do Aquecimento Global para o Ambientalista Cético. Não sei se já existe edição em potuguês da obra, a minha é inglesa. Um outro livro do autor, O Ambientalista Cético, este com edição em português e bem mais abrangente, com algumas centenas de páginas grandes, letras pequenas e muitos, muitos gráficos, apoia a mesma idéia, que eu sei, não disse qual é.

Não pretendo fazer neste post um resumo, uma resenha, uma análise ou uma crítica de nenhuma das duas obras, menos ainda do trabalho de Lomborg. Admiro-o, como admiro todos aqueles que, racionalmente, provam sozinhos que a maioria está cega.
Mas quero me ater aos títulos das obras, para uma análise que sei fazer com mais tranquilidade. Futuramente colocarei aqui dados e trechos dos livros, apontando absurdas contradições dos governos dos países mais desenvolvidos do mund, do Greenpeace e do IPCC (http://www.ipcc.ch/).

Quando um autor intitula seu livro, quer nos dizer alguma coisa. E esta coisa deve ser muito importante, porque o autor quer dizê-la mesmo para aqueles que não abram o livro, mesmo para aqueles que o repudiem, para aqueles que não sabem ou não conseguem ler mais de duas, três frases. Com o título um autor quer mandar uma mensagem para todos aqueles que lêem, mas também para todos aqueles que não lêem seu livro. Vamos aos títulos.

O AMBIENTALISTA CÉTICO.
Quer dizer, então, que há ambientalistas não-céticos? Sim, mas isso é óbvio. Vide loucos do Greenpeace. O interessante é que, ao que parece, um dos poucos que levantam a voz dizendo serem céticos é Lomborg, enquanto IPCCistas e Pacificadores Verdes creem no Grande Deus CO2 e no Livro Sagrado do Aquecimento Global e da Piora do Mundo.
No Ambientalista Cético, Lomborg comprova que o mundo, pasme, está melhorando! Não está tudo bem, e ele frisa que não está tudo bem o tempo todo, mas está melhorando, nós estamos no caminho certo. E prova usando dados do próprio IPCC boa parte do tempo!
Lomborg foi colocado no nível de Judas pelos ambientalistas crédulos, por explicar: há o problema, mas combatê-lo não pode ser prioridade enquanto milhões não comem, milhões não lêem e milhões morrem de malária (a malária não choca, mas menciono aqui porque ele menciona lá).

Vá atrás do livro, ou não, mas cuidado com o que você ouve sobre aquecimento global. Alguns milhões são destinados para pesquisa em torno disso, é interessante que ele se torne cada vez mais grave.
Só para terminar, a proporção de ursos mortos a tiros, nos polos, e ursos mortos por aquecimento global é algo em torno de cinco por tiros para cada um de gás carbônico.

Boa noite, e boa sorte.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Mainardi, o Lula é sua anta.

Caro Mainardi,

 

são interessantes as críticas que você faz ao Presidente Lula e ao seu governo, assim como o é boa parte das colunas que você escreve. Nunca neguei que você fosse competente em relação ao que faz com mais freqüência, e não pretendo fazê-lo agora. Nas próximas linhas, irei criticar somente as palavras que você disse acerca de Dom Casmurro, o romance do genial Machado de Assis e a microssérie Capitu, de Luis Fernando Carvalho. Palavras estas com as quais não concordo em absoluto. Comecemos pela coluna.

Transcreverei partes de seu texto aqui, para que possamos raciocinar juntos.

 

Na série, Bentinho aparece estranhamente caracterizado como Dick Vigarista, do desenho animado Corrida Maluca: nas roupas, no bigode, na magreza, no temperamento e, acima de tudo, na canastrice do ator que desempenha seu papel.

O homem que aparece na série e a quem você critica a caracterização não é Bentinho, é Dom Casmurro, e há aqui uma diferença importante. Sua crítica seria cabível se Bentinho fosse caracterizado de maneira assim caricatural, mas Dom Casmurro é assim, ao menos em seu interior. É um homem que vive isolado da sociedade, preso ao passado, amigo de prostitutas e que precisa “reatar as duas pontas da vida” e tenta-o de diversas maneiras, não obtendo sucesso, é um homem que só falhou. Foi, pensa, traído, seu filho vive, por seu esforço, longe dele. Não é um homem como os outros de sua época, não tem parentes vivos nem amigos que lhe sejam queridos, mergulhou na melancolia e na descrença de um velho decrépito e decepcionado com a vida. É natural, portanto, que numa microssérie feita à maneira de teatro, retrate-se o lado psicológico das personagens, inclusive em suas roupas.

 

É Bentinho imitando Arrelia no picadeiro de Fausto Silva: "Como vai, como vai, vai, vai? Eu vou bem, muito bem, bem, bem".

De fato, embora você tenha tentado fazer uma crítica por pura ignorância das características mais sutis de Bentinho, fez um elogio profundo à adaptação. De fato, a personagem foi ridicularizada, e não é para menos. Bentinho é um menino que, aos quinze anos, não sabe a diferença dos sexos e repete, na velhice, que muitos aos dezessete não o sabem. Por puro bom senso, sabemos que isso não foi verdade nem no tempo de Machado de Assis. Mas Bentinho é criança ainda na adolescência, e adolescente ainda na velhice, é natural e bom que seja ridicularizado, ele é genialmente ridículo.

 

No livro Dom Casmurro, o relato de Bentinho é espantosamente seco e desencantado. Ele narra sua história apenas para combater o tédio: sem drama, sem sentimentalismo, sem teatralidade.

Desencantado sim, já vimos porque, mas não no sentido que você atribuiu. Mas seco, não. Dom Casmurro faz paralelos com filosofia, teatro, poesia e religião. Não chame isso de secura, mas analisemos um pequeno, simples e sem importância trecho da obra, somente pelo seu valor estético:

 

“Não é que prima Justina fosse de biocos; dizia francamente a Pedro o mal que pensava de Paulo, e a Paulo o que pensava de Pedro; mas confessar que mentira é que me pareceu novidade. Era quadragenária, magra e pálida, boca fina e olhos curiosos.”.

 

Isto não é secura, não é economia de palavras. E o que você diz em seguida é ainda mais mentiroso e mal embasado. Dizer que D. Casmurro escreve para combater o tédio é o mesmo que dizer: “O lobo mau só se vestiu de velhinha porque gostava da fantasia”. Isto é o que Casmurro nos diz, não é o que deixa escapar e nem é a verdade pura, você teve a infelicidade de ser incrivelmente simplista nesta análise.

 

Foi então que os bustos pintados nas paredes entraram a falar-me e a dizer-me que, uma vez que eles não alcançavam reconstituir-me os tempos idos, pegasse da pena e contasse alguns. Talvez a narração me desse a ilusão, e as sombras viessem perpassar ligeiras, como ao poeta, não o do trem, mas o do Fausto: Aí vindes outra vez, inquietas sombras?...

 

Sem teatralidade, não é? Está bem, isso eu não discuto, Assis lhe desdisse por mim. Mas a passagem acima joga sua argumentação barata facilmente para escanteio. Se Dom Casmurro escreve somente por tédio, de onde vem a observação “Talvez a narração me desse a ilusão, e as sombras viessem perpassar ligeiras”. É casual, certo? Puro acidente narrativo, se não me engano. Mainardi, não seja casmurro ao ponto de achar que seu colega genial é tão inocente.

Como escrevi aí acima, não vou combater o sem drama, sem sentimentalismo, sem teatralidade.”, porque isso, qualquer um que leu o romance, ainda que sem atenção, sabe que não é verdade. Admira que você não o perceba, considerando que, eu espero, você leu a obra.

 

Quando Bentinho descobre que o filho bastardo de Capitu com Escobar morreu de febre tifóide, ele comenta simplesmente: "Apesar de tudo, jantei bem e fui ao teatro".

Gosto de pensar, Mainardi, que o que ocorreu aqui foi uma simples manifestação da sua inabilidade de escolher a palavra certa para o que quer expressar. Dom Casmurro não comenta simplesmente, comenta friamente. E, embora sutil, a diferença entre as duas expressões é grande. Já que você se atreve a criticar o que não conhece, eu ousarei te dar um conselho: releia o que você escreve.

 

A literatura brasileira tem um escritor. Um só.

Não. A literatura brasileira teve vários escritores. Entre eles, Guimarães Rosa e Graciliano Ramos que, cada um à sua maneira, contribuíram muito para a cultura nacional. Concordo, Machado pode ser o mais genial de todos eles, mas não é o único.

 

O que fizemos com ele, nos últimos cinqüenta anos, foi traí-lo com todos os Escobar que apareceram.

O que fizemos com ele, e o que fazemos com todos os escritores geniais, foi analisá-lo e adaptá-lo para diversas linguagens, na tentativa de entender e captar até onde foi sua genialidade e qual a profundidade da sua escrita. Se há erros, eles acontecem em todos os campos do conhecimento e com todos que tentam descobrir alguma coisa, mas traí-lo não. Estudá-lo seria uma palavra melhor.

 

Desde que Helen Caldwell, em 1960, negou o adultério de Capitu...

Verdade, negou. Mas o fez com muito mais base do que você menciona ao reafirmá-lo. Caldwell realizou, no mínimo, um grande trabalho de pesquisa para não só ler, se não toda, boa parte da obra machadiana, mas analisar as personagens e diversos trechos de vários dos escritos de Machado e também de diversas outras obras de teatro, poesia e religião. Não foi com base em menos que escreveu “O Otelo Brasileiro de Machado de Assis” e, se o livro é aceito até hoje por tantos especialistas em Machado como sendo uma importante análise de Dom Casmurro, é por ter muito de certo e aceitável, muito de influente e muito de revolucionário. Iniciativa ousada e talvez, não se sabe, errada, mas de todo modo, importante e extremamente influente. Deixe que autoridades em literatura maiores que a escritora critiquem seu trabalho.

 

A série Capitu festeja o abastardamento da obra machadiana. Machado de Assis sabe bem: de agora em diante, isso só pode piorar.

A minissérie festeja a possibilidade de levar ao conhecimento de uma maior quantidade de pessoas um pouco da obra de Machado e, quem sabe, incentivar muitas pessoas (como ocorreu com a criança de 11 anos, filha de um professor meu de Geografia) a lerem sua obra. Muitos não lêem Machado por não gostarem ou não entenderem. Muitos não lêem por faltar a apresentação formal e por não se ter contado a elas que o maior escritor da literatura brasileira pode ser divertido.

Duvido muito que Machado pense que isso só pode piorar, já que, por uma das pouquíssimas vezes que isso aconteceu, vi uma excelente adaptação para televisão de uma das melhores obras literárias do Brasil e, segundo Harold Bloom, do mundo.

Agora, ao Podcast.


É complicado começar a criticar o Podcast porque você se baseia nas palavras de um excelente – e misterioso – contista, cujas palavras eu não quero criticar. Mas a professorazinha do conto de Trevisan não está de todo errada em colocar em dúvida a suposta traição do livro.

 

O romance só faz sentido com o adultério. Sem ele, é um mau romance. Ou, citando mais uma vez Dalton Trevisan: "Se a filha do Pádua não traiu, Machadinho se chamou José de Alencar."

O sentido do romance é independente do adultério. Não o seria se Machado fosse um escritor completamente realista (falando aqui sobre a escola literária), que se prende a traições, incestos, quebras de celibatos, enfim, temas recorrentes na segunda fase de Eça de Queirós, por exemplo. Mas Assis é maior que o realismo, é vezes superior à crítica barata feita pelos realistas/naturalistas. Incluo na crítica barata os grandes escritores realistas, como Tolstoi em Anna Karênina, ou Flaubert em Madamme Bovary, ou Eça de Queirós em Primo Basílio.

Machado de Assis consegue fazer um romance interessante mesmo sob o suspense da traição, mesmo tendo um final não conclusivo. São poucos os que conseguem e poucos os que entendem a existência do suspense finalizando a obra. Um outro professor meu disse, na primeira aula do ano: “Ninguém gosta do que não entende”.

 

Desde 1960, quando a brasilianista Helen Caldwell publicou um estudo sobre "Dom Casmurro", difundiu-se estupidamente a idéia de que Bentinho é um narrador suspeito.

Mainardi, todo narrador não onisciente é suspeito. Porque toda narrativa em primeira pessoa não onisciente é subjetiva, se há exceção, não conheço. Até mesmo Zé Fernandes – do romance A Cidade e as Serras, do Eça – é subjetivo e impõe suas opiniões. A diferença reside no fato de Zé Fernandes ser um narrador sem importância, não ser o centro da própria narrativa. Por vezes, quem conta um conto, aumenta um ponto. Quando o conto é sobre si mesmo, usualmente aumenta-se dois. Existe até a possibilidade de ser essa a crítica de Machado, mas é um palpite fraco e dispensável. O fato é que Caldwell tornou complexa a leitura de Dom Casmurro não porque o quisesse complicar, mas porque o entendeu em profundidade.

Se Capitu traiu ou não traiu não interessa, entende? Por mais que seja divertido discutir, não interessa. O ponto todo é que não se pode ter certeza, e reforço, o narrador não é o Bentinho, esse era um adolescente que não sabia a diferença entre os sexos. O narrador é Dom Casmurro, um velho solitário que recebe frequentemente prostitutas e nunca sai de casa... Não é bem o homem em cuja palavra eu acreditaria sem pestanejar.

 

O problema dessa idéia é o seguinte: desconfiar de Bentinho significa desconfiar de Machado de Assis.

É, é. E o personagem e o autor são sempre a mesma coisa, certo? Só um acervo de leituras muito pequeno pode formular esta conclusão, Mainardi. É o mesmo dizer que ou Machado escreveu Memórias Póstumas de Brás Cubas depois de morto ou Brás Cubas é um mentiroso e Machado também. Não é isso, Cubas é uma personagem e Memórias é uma ficcção, assim como Dom Casmurro. Por favor, não cometamos o erro primário de confundir criador e criatura.

 

Bentinho - o Bentinho de Machado de Assis - é um narrador perfeitamente ponderado. Os fatos relatados por ele pertencem a um passado remoto. Ele descreve os eventos de sua vida com um distanciamento absoluto.

“Agora, por que é que nenhuma dessas caprichosas me fez esquecer a primeira amada do meu coração? Talvez porque nenhuma tinha os olhos de ressaca, nem os de cigana oblíqua e dissimulada”. Se isto não é uma declaração de amor, o que é? Por que, se há distanciamento e o passado é tão remoto, ele não amou a nenhuma outra? Por que, se os olhos de ressaca de Capitu são passado sem importância, impedem o narrador de se apaixonar novamente? E se são importantes, se isso é uma declaração de amor, ou de saudade, não há distanciamento absoluto. A emoção não permite tal distanciamento.

 

Seu ciúme desapareceu completamente. É só uma lembrança longínqua.

Quando sobre as despesas pagas por ele, do enterro do filho: “Pagaria o triplo para não tornar a vê-lo”. E depois: “Quando seria o dia da criação de Ezequiel?”. Se o ciúme é uma lembrança assim longínqua, porque tanta raiva? Se não há sentimento, não há motivo para aversão.

 

O Bentinho do tempo presente, que narra em primeira pessoa, sabe dizer o que é realidade e o que é fantasia.

Como qualquer narrador em primeira pessoa, Dom Casmurro (volto a frisar, o narrador é o velho solitário, não o adolescente que não diferencia os sexos) sabe dizer o que é realidade e o que é fantasia sob sua ótica. O mesmo faz o homem que conta a Conversa de Bois, que lhe foi contada por um cachorro do mato, para o narrador do conto em Sagarana, do Guimarães Rosa.

A realidade do narrador sempre é narrada por ele, como acontece em qualquer situação do dia a dia. Este caso é diferente dos contos narrados por Machado, nos quais ele faz o julgamento acerca das personagens. Dom Casmurro é o narrador de sua própria vida e, perdendo tudo e todos os que teve, não quer perder a boa imagem, que lhe resta por pouco.

 

Com o passar dos anos, sua mágoa e seu desespero se transformaram num estranhamento irônico.

Novamente sou eu que pergunto: se o último parágrafo da obra não é um desabafo dolorido e uma tentativa árdua de transformar em frieza sua auto piedade, o que ele é?

 

Bentinho resolve escrever suas memórias por tédio, para tentar ocupar o tempo. Em nenhum momento ele parece querer acertar as contas com Capitu.

Do tédio já conversamos antes, vamos ao acertar contas.

De fato, Dom Casmurro não quer acertar contas com Capitu, já o fez. Mandou-a para a Europa, isolou-a dos conhecidos, não a visitou nem respondeu suas cartas. Acertara todas as contas com Capitu quando começou a escrever sua obra, Dom Casmurro. As contas a acertar são consigo (“mas falto eu mesmo, e esta lacuna é tudo.”) e com seu passado (“Deste modo, viverei o que vivi...”).

 

Depois de terminar "Dom Casmurro", ele se prepara para escrever outro livro: uma história dos subúrbios. Essa é a chave para compreender o romance. Olhando para trás, Bentinho se dá conta da mesquinharia de sua vida, de sua sociedade, de seu tempo.

Uma outra visão possível e, pela quantidade de especialistas que a apóiam, mais provável. É que olhou para a obra que tinha pronta e deu-se conta: “Pois, senhor, não consegui recompor o que foi nem o que fui”, como disse no início do livro ao se referir à casa. E tenta mais uma vez, a terceira, retornar ao passado por meio da História dos Subúrbios.

 

O que, no passado, tinha um aspecto mítico, como o adultério de Capitu, revela agora toda a sua miudeza.

Não é assim, Mainardi. Na última página do livro, Dom Casmurro frisa uma passagem das Eclesiastes, um dos livros do Velho Testamento bíblico, demonstrando em seguida que não morreu a certeza de que era justo seu ciúme e logo depois declara, com fina e saborosa ironia: “A terra lhes seja leve!”.

 

No auge de sua loucura, Bentinho se compara a Otelo. Mas o paralelo com o herói shakespeareano é usado por Machado de Assis apenas como contraponto para ridicularizar seu protagonista. Otelo está para Bentinho assim como os heróis dos romances de cavalaria estão para Dom Quixote.

É possível e, se for assim, toda a leitura de Dom Casmurro deve ser analisada mais uma vez, pois a obra é inteiramente uma ironia. Bento Santiago parece-se o tempo todo com Otelo, por vezes com Iago, com muito mais seriedade do que Quixote se assemelha à um herói. Cervantes desenha o Cavaleiro da Triste Figura, no caso de Dom Casmurro, é ele próprio que se constrói e narra, desenhando um homem que tenta dizer que venceu, que está bem, mas deixa escapar que falhou, errou e perdeu.

Não é possível comparar a intertextualidade existente em Dom Casmurro com a escandalosa, mas muito bem feita, ironia de Miguel de Cervantes.

  Capitu traiu Bentinho. E ela traiu porque Machado de Assis, em "Dom Casmurro", tinha um propósito: transmitir o legado de nossa miséria.

Ou Capitu (não) traiu Bentinho. E ela (não) traiu porque Machado de Assis, em “Dom Casmurro”, tinha um propósito: escrever um dos melhores livros da literatura brasileira indo muito além dos banais escritores do Realismo simples de sua época e envolvendo maus leitores na certeza de inocência ou culpa da vilã-heroína da obra.

 

Mainardi, continue escrevendo sobre o Lula, isso, aparentemente, você faz bem. Ele é sua anta. Luis Fernando Carvalho não, nem Helen Caldwell, nem Machado de Assis.

 

Atenciosamente,

Gabriel Salomão.