(Sim, sei, vocês não sabem de que estou falando porque a beleza desapareceu há muito tempo. Ela desapareceu sob a superfície do barulho - barulho das palavras, barulho dos carros, barulho da música - no qual vivemos constantemente. Está submersa como a Atlântida. Dela só restou uma palavra cujo sentido é a cada ano menos inteligível.)
[Milan Kundera]

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Nascimento






extraído de "escritos para um leão"

Do raio do Sol veio o sândalo.
E a escada de subir prà Lua
Escorregou nas crateras,
E eu fui dar nas estrelas,
Sem saber como ou porquê.
Minha mão fez carinho nas feras
Meus olhos pararam na orla
Do Sol amarelo do amanhecer.

E se alguém falar, acredita.


E se alguém falar
Que me ouviu pensar
De você,
Pode acreditar,
Deve ser verdade,
Até mesmo sendo
Sem querer.

Porque, na verdade,
Foi tanta amizade
Q’eu não consegui esquecer.

E se alguém pensar,
Que me ouviu falar pra mim
Do quanto eu sentia
Tanto a tua falta,
Acredita.
Deve ser, enfim,
Sempre foi assim.

E em cada letra
Que eu traçar vou lembrar
Da tua maneira de ler
Sem perceber
O que eu escondi por trás.

E cada letra vai querer dizer
O que eu não disse p’ra você nem vou dizer.
E nem você, quando eu disse, pôde ler.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009



"At the beginning, therefore, what is bad is
whatever causes one to be threatened with loss of love".
(Sigmund Freud)


terça-feira, 4 de agosto de 2009

E tranquila.


E o único dom que te deram, homem,
Transformas-te em maldição.

Fizeste da tinta negra o sangue
E da canção o fim das cordas
Do instrumento musical.

Escreveste o vitória das hordas
De bárbaros negros sobre cidades
Destruídas.

Criaste, com a tua pena, homem,
Um mundo de desespero e desamor.
E isso tudo, escritor saudoso,
Com tua letra fina, doce, aérea, plácida
E tranquila.

É proibido, te gritou o Céu,
Escrever.
É proibido dar a conhecer
A magia que jaz em cada letra.

Tu escreveste, homem,
E amaldiçoas-te, por isso, a raça humana.

E tudo isso com tua pena leve,
Com tua tinta branca,
Com tua letra fina, doce, aérea, plácida
E tranquila.

E este diamante de tortura
É o que tens de mais precioso em ti.
É o teu coração, um grande cristal de rocha
Que deixa passar a luz, e retém a sombra do mundo.

domingo, 2 de agosto de 2009

Tiros de vidro


O som é do piar de um passarinho que amanhece
E desafinado, ainda, aquece a voz.
É de uma criança que grita, desconhece
Que o fogo é quente e tira a mão, veloz.

É da pena que arranha o papel áspero,
É do poeta que escreve um áporo,
E do panfleto que descreve um arco
E cai no chão, sujo, abreviado.

O cheiro é do tempo que parou,
É da fruta que estragou, passada
E de um soneto que não vai ser entregue
E de uma carta que não vai dar em nada
É do que passou,
sem significação.

O sabor é azedo, de pretérito,
É de quem sabe que nunca merecerá
A medalha de honra a quem merece.
É da rima que ficou faltando,
E que podia ter surgido, natural.

É da palavra que fica na boca,
Porque se saísse, sincera, feriria,
Ou, mais amargo,
Da que saiu entre risadas,
Para não soar como verdade a ser tomada,
A ser temida.

A vista é de sol, que machuca,
Ou de noite de cidade grande,
Da noite que foi morta pela cidade grande.
E pelo esforço desta de criar em fábrica
Um dia vinte-e-quatro-horas.

O tato? O tato é de tiro.
Mas de um tiro delicado.
O tato é de tiro de vidro.
Que machuca sem ser assassino,
E faz questão de, transparente,
Deixar sobreviver.
É do tiro que se aloja sem ser detectado,
Para ter a liberdade de permanecer.
É do tiro que amanhece encravado
Que você não percebeu entrar,
Não percebeu que mora em ti
E não vai tentar tirar dalí.

O cheiro na verdade é de queimado,
O som é na verdade de esquecido,
O gosto é de fruta estragada,
O aspecto é de prédio construído,
E o furo, digo o tato,
O tato é de tiro de vidro.



"Ao vencedor, as batatas" (Machado de Assis)
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...e a impressão que fica é a de que se um 'presta' e 'é pra casar', então ficará solteiro. Não é de caso pensado, não. E não é proposital de forma alguma, é a Máquina do Mundo, são as engrenagens, com certeza são as engrenagens.

Trabalhe, sim, sim. O sucesso profissional na verdade é tudo. Porque ninguém nunca tece críticas por se estar solteiro. Ou, ao menos, não aos ouvidos de quem é. Tece-se pelas costas, mas o que se faz pelas costas não se vê e não se ouve. Não machuca, e o ego permanece intacto.

Depois da morte, talvez, se o sucesso profissional for muito expressivo, algum biógrafo pode vir a escrever: "sua vida pessoal é obscura e pouco se sabe sobre seus relacionamentos, exatamente o oposto do que acontece com sua obra poética".


sábado, 1 de agosto de 2009


[há planos de voltar a postar. logo.]